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CAPÍTULO V - UM OUTRO MUNDO


– Vaniel, se tiveste uma adolescência tão interessante na companhia de teus amigos, assim como também, o apoio dos mesmos – me perguntaram novamente, as lembranças daquela linda médica ruiva – por que nenhum deles vira o mesmo que você se, desde o início, todos estiveram a par de tudo?
– Porque, com o tempo, nos tornamos adultos e nos afastamos – respondi – mais ou menos no fim de minha adolescência e início da idade adulta, e isso foi o mais difícil, ter tanto a mostrar, a compartilhar, mas ser rejeitado por todos. Nos distanciamos por quase uma década!
É certo que não perdemos contato completamente mas, quase se poderia contar nos dedos as ocasiões em que nos reunimos para fazer o que quer que fosse, mesmo morando tão perto, e essas raras ocasiões, apenas aconteciam pelo fato de que eu podia ser tão insistente que, vez ou outra, as desculpas que inventavam não eram o suficiente para me afastar, os deixando sem outra opção senão me receberem!
Mas, por mais difícil que fossem aqueles tempos, acho que eu não deveria reclamar de verdade sobre nada afinal, havia uma garota muito especial em minha vida, ela era quem me fazia companhia em todos os maus momentos, isto é, quando os horários de nossos respectivos trabalhos permitiam… pensando bem, acho que, apesar de ter falado sobre ela, não lhe dei, leitor(a), nenhuma descrição de sua aparência: ela tinha pele negra e sedosa, a mesma altura que eu e cabelos até os ombros, crespos, volumosos e brilhantes, tal qual se vê nessas fotos de modelos de embalagens de shampoos; seu rosto era o mais gentil que se possa imaginar, apenas um leve encontro com aqueles olhos negros, era o suficiente para perceber que se tratava daquele tipo de pessoa que se preocupa com as outras. Estava sembre bem-vestida pois, tal como eu, tivera também uma criação nos moldes religiosos, embora, na verdade, tivesse sido bem mais intensa do que a minha. O contraste entre nós era bem visível, isto é, o contraste entre minha pele extremamente clara e a sua, que era totalmente negra, o que atraiu muito preconceito contra nós, comentários tão maldosos e destrutivos, que eu jamais os registraria aqui, mas afirmo que vinham de todos ao meu redor, desde de minha mãe, avó e avô, até chegar a Ana.
E o que mais me deixava admirado quanto a ela (quanto a minha namorada), tanto positiva quanto negativamente, era que, em face do comportamento de todos, ela ainda tentava me fazer ver as coisas por um “ângulo melhor”:
– Todos te amam Vaniel, não dê bola para o que dizem, são apenas comentários da boca pra fora.
– O que acontece, é que cada pessoa tem seu jeito próprio de ser, de se relacionar e, no caso de sua família, eles são um pouco brutos, nada mais do que isso, mas todos te querem muito bem, tenho certeza!
Certamente, seria algo muito difícil pra qualquer pessoa aceitar, o fato de que, dentro de uma mesma família, seus membros não se queriam tão bem como se esperaria, e como isto é tão impensável, até certo ponto, as vezes buscamos desculpas para amenizar a situação e nos cegamos para a mesma, muito embora, minha companheira já possuísse ciência, ao menos, de alguns dos comentários que circulavam entre as pessoas próximas a nós, por exemplo, o mais comum (e também mais leve) deles, criado e espalhando por minha própria mãe (adotiva):
– “Eu num esperava nunca, que o Vaniel, sendo desse jeito, arrumasse uma namorada”!
O pensamento ingênuo de minha namorada pendia para a bondade cega, isso era o que mais me atraia nela, mas, às vezes, imagino o que ela pensaria se ouvisse a segunda parte do comentário, a parte que era reservada apenas para as reuniões de família que faziam sobre mim e que apenas circulava as nossas costas:
– “Num quero sabê do Snow trazendo nenhum namorado baxim pra casa não”!
Bem, eu realmente não sei para que lado seu pensamento pode ter se direcionado, então acho que se fazem necessárias muitas explicações aqui: já que minha pele era tão clara, segundo as palavras de minha própria mãe (tia): “…sendo desse jeito…”, seus comentários sempre refletiam a história da Branca de Neve, agora, imagine só, o que imaginava cada pessoa que ouvia isso repetidas vezes:
– “Num quero sabê do Snow trazendo nenhum namorado baxim pra casa não”!
É precisamente por isso que, qualquer um que conhecia minha namorada, dava continuidade a repetição interminável do primeiro comentário:
– “Eu num esperava nunca, que o Vaniel, sendo desse jeito, arrumasse uma namorada”!
Creio que você, leitor(a), deva estar se perguntando agora, se o fato de que, minha própria mãe (como eu ainda pensava na época), repetir por tantas vezes e para qualquer um, piadas como esta, que chegavam a criar uma imagem distorcida da realidade na mente das pessoas, você deve estar se perguntando se isso me incomodava, certo?
EU REALMENTE PRECISO LHE RESPONDER A ESTA MALDITA PERGUNTA?
Achou mesmo que eu a destacava ao longo de meu relato sempre como uma mãe adotiva, bem ao estilo da madrasta da própria Branca de Neve, sem motivo algum?
Felizmente, a mesma providência Divina que mantinha minha companheira ao meu lado neste momento tão difícil, também me apresentaria a um novo mundo, um que mudaria toda minha vida, muito embora, eu ainda não esteja lhe falando sobre aquele outro mundo sobrenatural que, em breve, eu visitaria. Mas, imagino que, ainda mais estranho do que o que lhe contei a pouco, deva estar lhe soando esta minha conversa sobre outros mundos, como se todo o meu relato fosse apenas uma estória literária do gênero de fantasia. A verdadeira fantasia, é mentir para si mesmo e ignorar a existência daquilo que contraria a mesma lógica débil que analisava os comentários sobre mim e tiravam conclusões tão incoerentes com a realidade, esta é a verdadeira fantasia irracional, acreditar que não existem outros mundos!

Hebreus 11:3 - “Pela fé entendemos que os mundos foram criados pela palavra de Deus; de modo que o visível não foi feito daquilo que se vê.” (João Ferreira de Almeida Atualizada)

Note bem que as Escrituras dizem, os mundos, e não, o mundo, ainda que, outras traduções optem por utilizar a palavra, o universo, no mesmo contexto. Mas há algo ainda mais revelador contido no versículo, percebemos isso comparando as diferentes traduções:

“…de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem.” (Almeida Revista Atualizada 1993)
“…de modo que o que se vê não foi feito do que é visível.” (Nova Versão Internacional)

Teria então, “nosso mundo material sido feito seguindo os moldes de algum outro mundo, sendo este, um mundo inteiramente espiritual (GÊNESIS 1:26 – ‘E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança…’) ou de ideias?”

SHAKESPEARE, William. HAMLET. 1602 – “Há mais coisas entre o Céu e a Terra do que pode imaginar nossa vã filosofia.”

Ora, não afirmam também, os adeptos do Espiritismo, por exemplo, que se aventuram por outros mundos espirituais além do nosso?

1 CORÍNTIOS 4:9 - “Porque tenho para mim, que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos, como condenados a morte; pois somos feitos espetáculo, ao mundo, aos anjos e aos homens.” (Almeida Revista e Corrigida)

Mas, se há algo que minha futura experiência ainda me mostraria, é que outros mundos verdadeiros, simplesmente não são alcançados por naves espaciais ou coisas feitas por mãos humanas. A verdadeira porta para se chegar até eles, chama-se “crença”, e tudo o que eu aprenderei, a partir deste ponto solitário de meu relato, equivale ao ato de se abrir esta porta e olhar o que há além dela. Esta seria a segunda etapa, o aprendizado!
Esta era como um mundo inteiramente novo para mim, e tudo começou quando retornei a praticar artes marciais, mas não se engane, eu não havia retornado ao boxe. Durante a adolescência, meus amigos e eu, estivemos constantemente observando um dojo em que se praticava karatê, e que ficava em frente a praça principal de minha cidade. Certamente, esse era outro estopim para iniciarmos nossos grandes debates, onde fazíamos comparações do que observávamos, com os filmes que passavam na TV, até discutíamos sobre um possível embate entre aquela escola e a “antiga”, a de boxe em que meu primo dava suas aulas, ou seja, muito do que falávamos sobre o assunto, eram coisas de adolescentes apenas. O mais irônico é que, enquanto na companhia dos amigos, nenhum de nós teve coragem para, de fato, entrar pelas portas do lugar. Apenas com nosso distanciamento, anos atrás, é que o longo tempo ocioso me deu o empurrão necessário. Foi quando realmente vi que, a diferença entre o karatê7 e o boxe8 que meu primo me ensinou, era enorme: jab, cruzado, direto, gancho, jogo de pernas, isso tudo estava lá, estava na nova arte também, mas ainda haviam muitas cosias novas: oi zuki, gyaku zuki, yoko zuki, mae geri-keague, mae gueri-kekomi, uchiro-gueri, yoko tobi-gueri, entre outros, o treino anterior não havia me preparado para isso, sequer as roupas orientais deixaram de me serem estranhas, sim, tudo aquilo para mim, foi como entrar num outro mundo desconhecido!
E a maior diferença eram os valores e comportamento “cortês”, mas não me refiro que esta diferença exista entre boxe e caratê em si, mas sim, entre os dois professores afinal, o que nos deixou mais temorosos (meus amigos e a mim mesmo) em entrar naquele dojo, era o que repetia meu primo sempre que alguém perguntava sobre aquele dojo:
– “Fica longe das outras escola, vão querer fazê fama em cima d’ocês, dizendo que bateram em alguém da minha!”
Sim, por culpa dele tínhamos medo de apanhar se fossemos procurar outros professores, mas, mesmo assim, num dia de total solidão, tomei coragem e me dirigi ao dojo, mas não entrei ainda, caminhei por toda a praça fazendo um pouco de hora, me sentei num banco qualquer, mas de onde poderia observar o local que, na verdade, parecia agora abandonado já que era um prédio muito antigo, que precisaria de muitas reformas e havia sido emprestado pela prefeitura para os treinos daquela escola. Só depois de haverem chegado alguns alunos e do professor notar a minha presença, é que tomei coragem, isto é, com uma última ajuda em fazê-lo, quando o ouvi falando de forma mais alta que o necessário com um de seus alunos:
– “Quem quer fazer algo, encontra um meio, quem não quer fazer nada, arranja uma desculpa”.
Então me levantei e fui até o lugar. Observei de perto o piso, que era de um material tão liso quanto vermelho e que não é mais visto hoje em dia. As paredes tinham um rodapé de um metro e meio, na cor madeira e, logo acima disso, eram preenchidas de um branco marcado pela idade e sujeira. Haviam também alguns quadros com fotos dos praticantes anteriores, executando belas técnicas, mas tive a impressão de que os quadros só estavam lá só para ocultar atrás de si os vários buracos das paredes. O forro de madeira, que um dia já foi branco, ameaçava cair sobre nossas cabeças a qualquer segundo!
No momento, era um rapaz muito estranho tomava conta das aulas e fazia isso voluntariamente, já que a escola nunca teve fins lucrativos. Ouvi um dos alunos o chamando apenas pelo sobrenome, Rodrigues, e passei um bom tempo treinando com ele sem conhecer seu primeiro nome, claro que, devido a vergonha que crescia a medida que o tempo também se esticava. Ele aparentava ser apenas um pouco mais velho e alto do que eu, tinha cabelos e olhos muito escuros e, mais estranho do que seu nariz torto (talvez por algum golpe), era sua maneira de falar. Embora exibisse uma faixa preta com alguns risquinhos vermelhos numa das pontas, na verdade, o rapaz não havia sido graduado naquela escola, pertencendo a um estilo diferente de caratê, após ter se mudado para a cidade (há cerca de dois anos), soube da sua existência de uma escola abandonada de caratê e procurou pelo local, então se ofereceu para continuar as aulas e recebeu a permissão do mestre que já possuía uma idade bem avançada e não conseguia mais acompanhar os alunos.
E, se a primeira impressão que tive dele já foi bem curiosa, a primeira aula foi, ao mesmo tempo, interessante e bastante estranha, devido a sua maneira de exemplificar e citar certas coisas que, mesmo sendo eficiente, ainda me era desconhecida, embora eu esteja fazendo o mesmo neste livro agora. Durante a aula, o rapaz parecia falar com amigos e não “com alunos do alto de sua cadeira”, como era no caso de meu primo. De início, ele se pôs a tentar esclarecer as dúvidas que eu e outros dois outros principiantes tínhamos: “se há mesmo, alguma diferença entre dois estilos de artes marciais” já que, a maioria de nós pensamos (de maneira ofensiva) que, “são todos a mesma ***** (coisa?)!”
Primeiro, ele ressaltou como as artes marciais são diferentes umas das outras, mas para a explicação, usou um exemplo bem esquisito, o que me fez pensar se eu realmente deveria estar ali. Depois das explicações, passou a uma aula prática, demonstrando uma base bem mais ampla da que eu já conhecia, alguns socos e chutes com nomes em japonês, em seguida passou para a execução de um conjunto de movimentos que me pareciam “coreografados” mas que, segundo ele mesmo, visavam adaptar os golpes as diferentes situações, e confesso que, depois de entender do que isso realmente se tratava, senti certa vergonha de chamá-los, nos debates com meus amigos, de “dança”.
E, para completar a estranheza (para mim) desta primeira aula, o professor nos falou um pouco sobre os benefícios que o autoconhecimento adquirido com o treino nos trariam e, até mesmo, usou uma história pessoal para ilustrar a necessidade dele, o que me deixou na dúvida se ele era um gênio ou um bobo:

– Dentro do livro, A ARTE DA GUERRA, encontramos:

SUN TZU, A Arte da Guerra: Edira Martin Claret, São Paulo, 2001, 3ª Edição. Tradução de Pietro Nassetti – “Conheces teu inimigo e conhece-te a ti mesmo; se tiveres cem combates a travar, cem vezes serás vitorioso. Se ignoras teu inimigo e conheces a ti mesmo, tuas chances de perder e de ganhar serão idênticas. Se ignoras ao mesmo tempo teu inimigo e a ti mesmo, só contarás teus combates por tuas derrotas.”

– Para se ter sucesso num combate, é necessário conhecer sua própria capacidade de luta, assim como também, a de seu inimigo. Se conhecerem bem a ambos, vocês sempre vencerão. Porém, se apenas conhecerem a vocês mesmos, mas não aos seus inimigos, será como tirar no cara ou coroa, ou seja, terão metade das chances de vencer a luta. Não conhecendo a nenhum dos dois, não terão nenhuma chance de vencer!
– Eu mesmo, numa certa ocasião em que levei minha esposa as compras, precisei acomodar uma grande caixa no banco traseiro do carro, bem atrás do banco do passageiro, onde ela se sentaria logo em seguida. Mas, o detalhe aqui é que: quando o banco do meu carro retorna para a posição correta, após ter sido afastado, o mesmo deve fazer um som de “clik”, que indica um encaixe correto, o que não ocorreu porque ela estava com pressa e entrou rapidamente sem me permitir corrigir isso. A caixa havia impedido o banco de chegar a posição correta, então o som não foi ouvido.
– O resultado desta viagem foi que precisei levar o carro a uma assistência técnica para receber os devidos concertos.
– Mas, como isso se relaciona com o trecho do livro?
– Ora, “conhece-te a ti mesmo”, neste caso, significava conhecer o meu próprio carro, e eu sabia a posição correta em que o banco deveria estar e como deveria soar. Enquanto que, “conheces teu inimigo”, equivale a saber o que aquela caixa faria ao banco. Mas, para não aborrecê-la, a minha esposa, acabei por ignorar tudo, ou seja, “se ignoras ao mesmo tempo teu inimigo e a ti mesmo, só contarás teus combates por tuas derrotas.”
– Percebam que minha vitória estaria assegurada, caso tivesse me manifestado, já que eu conhecia a mim mesmo e ao inimigo, mas como os ignorei, a derrota do banco do meu carro é que foi o resultado deste combate!
Certamente foram ensinamentos relevantes, mas vieram de uma maneira tão hilária que, talvez tenha sido por isso e não pelo treino em si, ao menos no início, que eu tenha retornado ao lugar nos anos seguintes. Encontrei novamente, um lugar onde se poderia realizar aqueles antigos debates sobre teorias, outros mundos e as coisas mais variadas possíveis, e era com ansiedade que eu esperava para limpar o dojo no início de cada aula, porque este era o momento em que mais falávamos sobre tais assuntos:
– Já passaram pela experiência de se acordar a noite sem nenhum motivo aparente – perguntou sensei enquanto enchia um balde d'água – mas tomado pela sensação de desespero?
– S-sim… algumas vezes – respondi, em seguida, outro aluno contou o seguinte caso:
– Teve um dia em que sonhei com algo assim, mas nele, eu estava deitado exatamente no mesmo lugar, na minha cama, e mesmo sendo noite, tudo estava claro. A luz aparentemente vinha de minha própria visão; de repente, acordei muito desesperado sem saber o por que, como se houvesse algo ruim por perto.

Duas, três, quatro e logo a quinta história semelhante surgiu enquanto puxávamos a água do chão em direção a porta, já que não existia ralo em lugar algum do salão.

Mas sensei interrompeu a conversa para dar início a aula, e apenas após o término da mesma e de todos os exercícios, é que retomamos ao assunto anterior, ou seja, voltamos a falar sobre experiências “sobrenaturais”, então contei sobre alguns sonhos estranhos que vinha tendo:
– Acho que desde que comecei a jogar RPG com os amigos, tenho sonhado com um grande livro, as vezes com sua capa escura e outras ele se torna vermelho, como se estivesse coberto de sangue. Mas, nunca tentei abri-lo nem lê-lo, não, antes ele parece ter vida em si e se abria sozinho para mim, revelando grandes dentes afiados e brancos que saltam de suas páginas.
– O mais estranho era que mesmo, vendo um livro dentado, não havia medo, pelo contrário, era e é, algo que causa alegria… espera, eu disse que isso era o mais estranho?
– Não é não, o mais estranho mesmo, é que em vários de meus sonhos, não apenas neste em particular, acabo olhando para o céu e avisto uma lua muito estranha, está quase toda negra, coberta por uma sombra, deixando apenas uma pequena parte iluminada.
Sensei respondeu:
– Há muito o que se levar em conta quando falamos de sonhos, pois podem tanto vir da parte de Deus, como uma mensagem, quanto também por influências malignas. Ou podem ainda, ser algo do seu próprio subconsciente, uma simples imaginação de criança de tanto jogar RPG!
Porém, após uma breve pausa (em que talvez estivesse apenas inventando algo mais interessante para dizer, já que notou minha insatisfação com seu comentário vago), ele prosseguiu dizendo:
– Quem sabe, você esteja tratando como um brinquedo aquilo que tem por objetivo dirigir sua vida, pois os dentes grandes que citou, mostram que isso tem também o poder de te ferir se for negligente…
– Mas, o que é… “isso”? – perguntei. Ele fez uma cara estranha e falou quase rindo:
– Eu não sou você, como poderia saber o que tem vivido?
– Talvez seja algum livro que tem, ou que terá uma grande importância em sua vida, mas, o que mais me intrigou, como você mesmo ressaltou, foi a Lua parcialmente escura, já viu a mesma coisa em outros sonhos, certo?
A resposta seria sim, por anos fui “assombrado” por ela, à estranha Lua estava presente em outros sonhos. E um deles, em particular, acabava sempre mudando para se adequar as condições de cada faze de minha vida em que o tinha: quando criança minha mãe (tia) estava presente nele, durante a adolescência, havia algum amigo como Batata ou Ana, e mais tarde, minha namorada. Assim como também as condições do local eram alteradas, por exemplo, quando nossa casa não possuía uma pintura totalmente acabada, apenas um fundo em azul-claro, era assim que a via nos sonhos, já alguns anos depois, quando recebeu a devida pintura, essa diferença do ambiente também se refletiu em diferentes versões de minhas “visões”:

Qualquer pessoa acharia esta conversa no mínimo, estranha, e se podia notar isso na atitude dos demais, que simplesmente começavam a se levantar e pegar suas coisas para irem embora, e como se lesse meu pensamento, ou talvez fosse mera coincidência, sensei disse energicamente:
– Snow, “algo” me diz que você passará por uma experiência muito curiosa antes de nossa próxima aula!

Depois de um momento de silêncio, imediatamente sensei mudou de assunto e perguntou:
– Gosta de assistir animes Vaniel?
– Sim – falei – desde pequeno, também sou fã games e outras coisas do gênero.
Ainda hoje sou grande fã mas, como pode imaginar, não tenho mais contato com nada do tipo a anos, porém, meu sonho de criança sempre foi ser um desenhista, e até cheguei a fazer uma ou outra ilustração para uma revista local, pouco antes de que tudo acontecesse.
Estava ficando tarde e os outros alunos já haviam ido embora, restando apenas nós dois, ocupados na conversa e em guardar as coisas que havíamos usado no treino, tatames, cadeiras e tudo mais, em seguida, fechamos as antigas portas de madeira branca, que sempre precisavam de mais de uma pessoa para isso, pois eram bastante velhas e emperradas, e cada um se dirigiu para sua casa. Durante meu caminho de volta para casa, ao qual, fazia a pé, pois eram poucas quadras de distância, refleti sobre a estranha conversa inacabada e o que os animes tinham a ver com tudo aquilo. E, foi só quando já estava quase na esquina de casa, que algo fez sentido e me lembrei estranhamente, do um anime chamado Akira: numa das cenas finais, um tipo de poder que destruiria a tudo em seguida, é liberado e uma grande bola de luz branca começa a se propagar indefinidamente, engolindo tudo em seu caminho. A lembrança foi tão súbita e vivida que me causou certo espanto, provavelmente ela foi desencadeada pela pergunta anterior.
Em casa, passei por minha mãe (adotiva) e meu primo, que as vezes chegava de seu próprio treino alguns minutos antes de mim, ambos me olharam de forma desdenhosa, por isso sequer tive fome e fui direto para a cama. Ainda refletindo sobre o assunto, me perguntei:
– Qual a relação entre aquelas cenas e meu sonho?
– Se fosse o caso de realmente ser uma visão, eu não deveria enxergar tudo mais claramente e não com a desnecessária ajuda de uma cena de anime?
– Acho que não foi visão alguma, deve ter sido só um sonho comum, devo ter ficado impressionado com a cena, pois ainda era uma criança…
Subitamente, um novo pensamento passou por minha cabeça, mas este foi ainda mais estranho do que a lembrança anterior, porque não foi como se eu mesmo tivesse juntado os pontos e chegado a uma conclusão, foi mais como se uma revelação houvesse sido jogada toda pronta em minha mente e, de um segundo para o outro, simplesmente havia a resposta, a epifania desencadeou outra lembrança, tão forte que se manifestou numa voz audível:
– “Significa, que é impossível fazer alguém escrever o que não sabe ou, pelo menos, tem que ser o tipo de coisa que inventariam sozinhos!”
Me sentei imediatamente na cama e busquei entender, mas era inútil, EU JÁ HAVIA ENTENDIDO exatamente como as visões funcionavam, o que restava agora, era entender o que havia ocorrido no momento em que entendi…
– Será que é isso o que chamam de epifania?
Noite adentro fiquei imerso em teorias e divagações sobre o ocorrido, ora questionava a veracidade ou importância do que aconteceu, ora pensava se tratar de um sinal para um destino grandioso, até que o sono tomou conta, mas logo deu lugar aos tradicionais gritos de minha mãe pela manhã.
Mesmo em dúvida, eu ainda teria de suportar dois dias inteiros antes da próxima aula, para ter a chance de falar com alguém sobre o assunto. E finalmente, passado esse período que foi escruciante, pude relatar a história de minha iluminação e ouvir o que ele tinha a dizer:
– Não tentei explicar nada antes porque, as vezes, é muito melhor passar pela experiência real, do contrário, poderia não ser possível para você entender uma explicação de como funcionam as visões para algumas pessoas.
Entretanto, como os alunos já começavam a chegar, ele disse:
– No final da aula continuamos a conversa!
Tudo correu exatamente como de costume durante o treino, exceto, é claro, pela minha ansiedade, terminamos a limpeza do dojo, realizamos os exercícios, alguns combates, e após o que me pareceu uma eternidade, encerramos. Depois da aula, enquanto falávamos, outros alunos também ficaram conversando na porta do local, então perguntei aquilo que eu já sabia, mas que precisava ouvir de outra pessoa:
– Se fosse o caso de realmente ser uma visão, eu não deveria enxergar tudo mais claramente e não com a desnecessária ajuda de uma cena de anime?
Ele respondeu:
– Você não pôde ter uma visão da verdadeira forma, porquê jamais havia visto ou ouvido sobre aquilo antes, então como poderia saber que aparência tinha ou o que fazia?
– Está entendendo?
Acenei com a cabeça. Ele prosseguiu:
– A construção da aparência do que houve nos seus sonhos, foi baseada em alguma outra imagem já existente em seu subconsciente, ou seja, em algo que você já conhecia, neste caso a luz que engolia a cidade durante o final daquela animação. E estou bastante certo de que, você também conhece a origem da frase que ouviu falando em sua cabeça, não conhece?
Novamente acenei.
– Então tomemos como exemplo o seguinte caso: imagine que você visse, em sonho, Jesus Cristo. Provavelmente você o enxergaria com uma aparência já conhecida, que seria originaria de algum quadro que tenha visto antes, por exemplo, porquê seria esta a imagem que se associaria a Ele, seria assim que você O reconheceria mas, por que tem de ser desta maneira?
– Certamente, alguns de nós até podemos experimentar a presença de Deus, porém, em um nível humano. De forma alguma estamos preparados para Sua plenitude em Espírito, pois a luz não tolera a sujeira, antes ela a consome, então tais “disfarces” se fazem necessários para nosso próprio bem e até para uma melhor entendimento, isto é, quando O buscamos o suficiente para recebermos também Sua interpretação!

JOEL 2: “28 E há de ser que, depois derramarei de Meu Espirito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões”. (Almeida Revista e Corrigida)

– Mas é preciso ter cuidado, porque também é assim que o inimigo pode agir as vezes. Pelo fato de existir um véu que nos impede de enxergar além destas três dimensões e divisar a quarta, ele (o inimigo) imita o agir de Deus e engana a muitos.
Enquanto conversamos, estivemos observando os dois alunos que, agora estavam golpeando o saco de pancadas de forma desengonçada. Então sensei apanhou um lápis e um pedaço papel em sua mochila que estava bem ao lado de uma espada mal tratada que ele insistia em carregar consigo todo o tempo mesmo que jamais o tenhamos visto fazer um movimento sequer a usando, depois rabiscou alguma coisa, esticou o papel com as mãos, ergueu-o diante dos meus olhos e perguntou:
– É essa é a Lua que sempre tem visto em seus sonhos?


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