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CAPÍTULO XI – LEMBRANÇAS PARTE 2 – A ORIGEM DO SER

Existem muitas lendas dentro do mundo das artes marciais: toques mortais, “disparos de energia” e/ou golpes a distância, entre outros. Foi isso que a presença que me rodeava, ainda no quarto de espera, me fez recordar, mas não exatamente de toda esta “charlatanice” como diria o sensei” e sim de dias de treino anteriores a minha morte. Eu assisti minhas próprias lembranças como se me fossem contadas por uma outra pessoa:

– Vaniel, poderia chegar um pouco mais cedo na próxima aula? – perguntou sensei instantes depois da “ameaça” de Patrício, enquanto o mesmo se ocupava de fechar uma das antigas janelas de madeira nos fundos do dojo – Quero te mostrar uma coisa que algo me diz que será muito necessária para você!
Ele certamente se questionou quanto ao tom de mistério que seu professor inferiu as palavras, como se se imaginasse como um antigo e sábio mestre que deve guiar os mais jovens a uma missão que eles próprios desconhecem… Como sugerido e também por estar tomado pela curiosidade, Vaniel chegou muito mais cedo na aula seguinte. Sensei não se preocupou em abrir as portas, em vez disso apenas colocou suas coisas, ou seja, as chaves do local e a velha espada de que nunca se separava, em um canto qualquer, em seguida convidou seu aluno a se dirigir a praça que havia de frente ao prédio, onde se sentaram em bancos separados, mas perto o suficiente para se ouvirem, então o professor começou a falar sobre as “vibrações vindas das intenções de um adversário”, mas Vaniel não entendeu nada!
E vendo como seu aluno estava perdido, uma pausa foi sugerida. Por um tempo eles observaram alguns pássaros mais a frente, que estavam comendo o que quer que houvesse caído no chão, haviam vários pardais e pombos enormes de gordos, porém, é preciso ressaltar aqui que diferente de cidades grandes em que os pássaros não se incomodam e nem voam com a aproximação humana, em cidades pequenas e no campo o simples ato de olhar pra eles já os deixa em alerta, quanto mais tentar se aproximar, que foi o que sensei propôs inocentemente logo depois de Vaniel ter inclinado seu olhar na direção dos seres alados:
– Vaniel, está vendo esse bando de pássaros aí na nossa frente?
– Te desafio a tentar andar por entre eles sem que nenhum… v-voe…
Até pareceu a Vaniel que a última palavra escapou dos lábios do professor acompanhada de um grande esforço para que o riso não se tornasse inaudível e ele ficou imaginando que, a qualquer momento, durante a tal caminhada, sensei saltaria em sua direção e diria em tom de zombaria:
– “TE PEGUEI!!!
Em sua cabeça só poderia ser isso mesmo uma pegadinha… mas, vendo que a expressão no rosto do sensei, apesar do esforço, era realmente seria, como se aquilo se tratasse de vida ou morte, Vaniel se levantou contrariado, virou-se em direção aos pássaros e tentou se aproximar bem devagar, sem fazer barulho ao andar, mas claro que não foi preciso chegar nem muito perto para que todos os pássaros dessem uma rápida olhada em sua direção e de uma só vez levantassem voo para bem longe, não importando a velocidade e cuidado com que deu seus passos. Sensei não disse mais nada enquanto observou seu aluno sentar-se no banco novamente e Vaniel poderia jurar que viu um pequeno sorriso de deboche no canto de sua boca. Nenhum deles fez nem disse mais nada, apenas esperam pacientemente que outro bando se reunisse no canto oposto da praça e, assim que haviam pássaros o bastante, sensei se levantou e simplesmente caminhou na direção deles. Surpreendentemente, não o fez de forma cautelosa nem nada assim, ele apenas “executou um caminhar normal”, desses que praticamos ao ir na padaria ou a casa de algum amigo por exemplo; caminhando normalmente ele passou por entre todos aqueles passarinhos que procuravam sua comida pelo chão, mas com certo cuidado para não lhes pisar e o mais inacreditável: sem que nenhum sequer olhasse em sua direção ou fizessem o menor movimento que demonstrasse sua intenção de bater asas e voar. Caminhou por entre eles, foi e voltou para perto de Vaniel sem causar nenhuma mudança nos pássaros e, diante da expressão boque aberta do rapaz, ele disse:
– O que acabei de fazer foi “ocultar” quaisquer irradiações de intenções que tivesse, fossem elas boas ou más, então, para esses pássaros, foi como se eu não mais fosse um ser humano.
Parecendo uma criança animada com um brinquedo novo, mas, ao mesmo tempo, também incrédulo, a única coisa que Vaniel pôde perguntar foi:
– Você fez seu-seu… “ki”… desaparecer?
– Essa história está virando algum desenho animado japonês?
Sensei riu primeiro, mas depois respondeu:
– Não chega a tanto assim! Não estou me referindo ao conceito de “energias ou poderes” que vemos nesses “desenhos”, mas, apesar de podemos chamar dessa forma mesmo, de ki, isso não é mera invenção de algum desenhista oriental, pelo contrário. De onde acha que se tirou a ideia de “ki” nesses desenhos?
Vaniel pareceu por um momento querer erguer o dedo para responder mas foi interrompido:
– Foi uma pergunta retórica… o ki, na verdade, existe (ao menos, em conceito) dentro do mundo das artes marciais “mais tradicionais” como Karatê-Do, Aikido ou ainda, o Kung Fu, onde é chamado de Chi.
– Nós humanos, temos pensamentos passando por nossas mentes a cada segundo do dia, ou mesmo da noite (quando estamos dormindo e eles se manifestam na forma de sonhos), desses pensamentos e desejos nascem nossas “intenções tangíveis” e, quando elas se focam em algum objetivo ou ser com demasiado interesse acabam “irradiando” vibrações, ecos de nossas intenções, para o exterior (sem que tenhamos conhecimento disso, obviamente), assim, (teoricamente e/ou “religiosamente”) seria possível, em condições muito especiais, percebê-las e determinar sua origem… embora os humanos não sejam a única fonte de tais vibrações!
– E quais seriam essas outras fontes? – perguntou Vaniel. Sensei respondeu:
– Esqueçamo-nos delas por enquanto, do contrário nos desviaremos do raciocínio.
O tom que usou ao responder foi levemente ríspido, mas depois continuou a falar:
– Para além de nosso corpo, mesmo que todo o consciente e o inconsciente possam ser explicados, ainda existe um outro aspecto da existência, o espiritual, ou seja, alma (mente) e espírito NÃO SÃO A MESMA COISA. Tal como fisicamente nosso corpo gera (através da alimentação e da “queima” da mesma) certa quantidade de energia, também tudo aquilo que é espiritual têm sua equivalência e gera certos tipos de energia. Algumas praticas (dependendo da cultura ou linha de pensamento) chamam o próprio espírito ou a energia que por ele, ou dele, emana, de ki, ou chi, ou energia vital, energia telúrica, ou ainda, forças sutis da natureza.
– Poderíamos chamar “isso” por todos esses nomes ou por vários outros, mas como ambos somos fãs de animações japonesas, por que não ficamos mesmo com o termo ki para designar a energia espiritual?
Vaniel assentiu com a cabeça, lhe parecia ao mesmo tempo, interessante e engraçado chamá-la por esse nome, em seguida o professor continuou sua explicação:
– Algumas ideias sugerem que o ki seria como um fluxo de energia que sustenta toda a vida e que corre não somente no ser humano e nos animais, como também em todos os elementos pertencentes a natureza, tais como os rios e os ventos.
– Há também alguma associação com o campo elétrico gerado pelo corpo já que, segundo os usuários da chamada “terceira visão”, por meio dela (da própria terceira visão) esse campo elétrico poderia ser visto e recebe o nome de aura.
– Dentro de doutrinas como a espírita ou budista, a glândula pineal é que apontada como a intermediaria/responsável por tal interação, isto é, entre a consciência e o mundo espiritual.
Nesse momento sensei fez uma breve pausa assistido por seu aluno, ele pareceu tentar se recordar de mais algum detalhe, de modo que Vaniel acreditou que aquilo que ele lhe disse em seguida foi justamente para ganhar tempo enquanto ainda não se lembrava do que queria dizer de verdade:
– Acredita em vampiros?
A pergunta fez com que Vaniel pensasse:
– “Mas não acabou de dizer que se desviaria do assunto se respondesse minha pergunta?”
– “Falar sobre vampiros não é um desvio ainda maior?”
Mas ele não disse nada disso, apenas pensou por um segundo e depois respondeu com cautela:
– Acho que acredito apenas em Vlad, o Empalador, o homem que dizem que tinha o hábito de consumir o sangue e carne de suas vítimas, mas não um ser sobrenatural dotado da imortalidade e sede de sangue.
O professor exibiu um leve ar de espanto, até agora havia sido ele mesmo a dar todo tipo de referências sobre tais assuntos, e talvez tenha sido para não ficar atrás do aluno que acrescentou:
– Na verdade, as lendas mais antigas sobre eles (os vampiros) vem da Suméria, bem antes de Vlad, mas aqueles a que quero citar são bem diferentes da imagem que existe nos livros ou filmes: existem certos indivíduos que afirmam serem “vampiros de energia”, eles dizem que podem se alimentar da energia vital das pessoas por meio do toque.
– Com uso de certos equipamentos é possível se medir o campo elétrico do corpo, assim, foi feito um experimento onde se fotografou a aura de voluntários e em seguida, uma “destas pessoas” tocou a “cobaia”, depois a aura foi novamente medida.
– O resultado foi um tanto perturbador: após o toque, o tamanho e intensidade do campo elétrico do voluntário diminuiu visivelmente, e marcas estranhas provenientes do local de contato surgiram.
– E você está dizendo – perguntou Vaniel – que, com nosso treinamento nos tornaremos agora caçadores de vampiros?
Sensei não se deteve pelo sarcasmo e respondeu:
– Estou apenas lhe mostrando um indício da existência desta energia vital que estamos chamando de ki.
– Dizem que existe um Japonês na internet que é capaz de dispersar energia pelas mãos e estilhaçar vidros com ela… não faça essa cara, o caso é que quero salientar que todas estas lendas e doutrinas têm uma certa verdade por trás, aos menos, quanto a alguns atributos ou aspectos do ki, porém, nenhuma delas trata de sua verdadeira raiz e é isso o que você precisará entender para enfrentar o que virá.
“…enfrentar o que virá…”? – repetiu Vaniel em tom de questionamento.
– N-não é nada, esqueça… – falou o professor – voltemos a raiz do ki, ainda se lembra dela?
O aluno respondeu:
– O senhor é que estava prestes a falar sobre o assunto… mas… essa raiz, seriam por acaso os sete chakras?
– Esses são “pontos de exaustão” – respondeu – mas não a raiz!
– São como “pontos de energia” por onde o ki fluí desde sua raiz até o corpo físico…
Sensei de repente sorriu e falou como se se lembrasse de algo importante:
– Acho que tentar explicar com palavras vai apenas confundi-lo mais ainda, há pessoas que precisam de anos para entender isso, mas há um caminho mais curto.
Levantando-se do banco, ele pediu que Vaniel o seguisse e foi indo em direção ao dojo novamente, ao chegarem lá, sensei não abriu nenhuma porta nem janela, apenas acendeu uma luz ao fundo que já estava prestes a se queimar e não iluminava quase nada, depois apanhou um tipo de lenço preto e todo empoeirado num canto e atirou-o para Vaniel dizendo:
– “É uma venda”, ponha!
A tarefa a frente seria muito simples para o rapaz: os dois fariam um treino de combate porém, Vaniel estaria vendado e para aumentar (ou diminuir) a percepção, antes de começarem a luz do fundo foi apagada (somado ao fato de que a noite já estava se manifestando).
– “Falar é sempre mais fácil do que fazer!” – pensou Vaniel já tateando a procura de alguém no escuro para que pudesse executar algum movimento. Sua busca não revelou nada, tudo era silêncio e, por um tempo, lhe pareceu que estivesse sozinho no lugar. Mas, de repente foi golpeado sem sequer saber de onde vinha em mesmo se pondo a procurar por alguém, ele apenas foi atingido várias veze por socos e chutes “vindos do nada”. Ele experimentou atacar a esmo esperando atingir “qualquer coisa”, ou se guiar pelo som dos passos que seu sensei fazia as vezes, mas de nada adiantou, parecia que os barulhos que ouvia eram feitos propositadamente para o distrair e facilitar o encaixe dos golpes.
Vaniel precisou de muito tempo para se acostumar a situação e fazer com que seus sentidos se aguçassem levemente fa ponto de ser capaz ouvir o som verdadeiro dos passos e do tecido da roupa de seu adversário se movendo a cada passo, não aquele que fazia com objetivo de o distrair, até o deslocamento do ar se tornou audível e aquilo lhe pareceu incrível. Mas nem bem ele havia alcançado tal percepção e um Mae Geri explodiu em seu abdômen o lançando sentado para o chão. Aparentemente seu sensei percebeu a mudança de atitude e o testou, embora ele tenha sido atingido, algo ainda era de se destacar, pois desta vez Vaniel foi capaz de distinguir exatamente qual foi o golpe usado para o derrubar, ainda que nada tenha podido fazer o impedir. Embora fosse apenas um treinamento e os golpes não tivessem a real intenção de ferir o adversário, ainda eram golpes desferidos por alguém que tinha anos a mais de treino e experiência a frente do rapaz, então alguma dor e desconforto foram inevitáveis para ele. Passados alguns momentos e rompendo o silêncio que havia se formado, sensei disse:
– Você AINDA está fazendo uso de seus sentidos para TENTAR… – e enfatizou tanto a palavra, “ainda”, como a palavra “tentar” – …me encontrar!
– Pare de me procurar!
– Pare de pensar!
– Pensamentos e dúvidas são só distrações, foque-se na sua respiração e na escuridão que cega seus olhos, de tal forma que ela preencha, não só a sua mente, mas também o espaço físico que está a sua volta e, se algum pensamento tentar cortar por ela, faça-o retornar de onde veio…
Palavras semelhantes já haviam sido ditas em aulas anteriores e Vaniel até se lembrava, mas não tinha entendido nada, tratava-se, na verdade, de uma variação da técnica de concentração que usavam as vezes: comumente imagina-se uma vela acesa e logo após, a mesma se apagando.
A maioria das pessoas pensa que este EXERCÍCIO é o que se pode chamar de “meditação”, quando é apenas isso mesmo, um exercício para melhorar a concentração!
A verdadeira meditação trata da observação, compreensão e reflexão, sejam elas dirigidas a “objetos” exteriores como no caso daqueles que meditam sobre as Escrituras, ou como a famosa meditação budista [Na verdade, esta definição foi (propositadamente) bastante “genérica”, destinada apenas ao leigo. É claro que há extremas variações do que seja a meditação, a depender da linha ou prática religiosa que se está observando, seja o Zen Budismo (que aponta para uma “distancia” maior do eu), o Theravada, ou mesmo, a meditação dentro da Yoga ou do Hinduísmo que buscam harmonizar o espírito e/ou os centros de chakra] que trata de olhar para dentro de próprio eu, observar os os pensamentos que afloram a mente e dedicar-se a descobrir o que os motiva, logo, o que motiva o indivíduo, quem ele é.
Não é para o autoconhecimento que esse exercício serve, mas sim para que nossa concentração alcance um grau mais elevado: ao imaginar uma fonte de luz, talvez a vela, ou mesmo o Sol sobre uma árvore, concentramo-nos primeiramente na luz para que ela disperse os demais pensamentos [Mas, que pensamentos são esses? Certamente não se trata de “deixar a mente vazia do raciocínio e dos pensamentos humanos em si”, não é isso. Primeiro considere o contexto da narrativa: um combate entre artistas marciais. Agora imagine que, durante a luta, o praticante esteja pensando, por exemplo, pensando em como seu adversário é superior e/ou em como ele não tem treinando como deveria ultimamente e/ou o que aqueles que o assistem devem estar pensando, se estão rindo ou apreciando sua “atuação”, cada um destes pensamentos desconexos minam uma certa porcentagem do desempenho real do lutador. É exatamente por conta dessa distração que o personagem de TOM CRUISE (Nathan Algren), no filme, O ÚLTIMO SAMURAI (2003) perde os duelos no início de seu treinamento, como é dito: “muito na cabeça”. Pensamentos de seu lar, de seu passado, daqueles a sua volta e etc. Eles acabam “drenando suas habilidades”] e arrebate nossa atenção até que, finalmente, possamos a apagar em nossas mentes e fazer com que a escuridão (ou seja, a ausência de quaisquer elementos debilitantes) “preencha” nosso foco. Mesmo de olhos fechados uma escuridão “verdadeira” não existe, há sempre um pouquinho de luz que atravessa nossas pálpebras e contamina o escuro, ou imagens irreconhecíveis dançando em nossas retinas, da mesma maneira acaba ficando nossa mente, repleta de pensamentos “poluidores”, é por isso que substituirmos esse completo caos por uma luz ordenadora. Ao nos concentrar na luz, a mesma sobrepuja as dúvidas e os inimigos mentais, mas acaba tomando para si toda a nossa atenção, portanto, a etapa seguinte deve ser apagar essa luz. O sinal de sucesso será a capacidade de se enxergar uma escuridão plena, porque sua atenção, até então, “estava cem por cento focada num único ponto luminoso”, mas agora eliminamos este foco de nossa atenção, ou seja, temos cem por cento de atenção [Depois de fazer desaparecer todos aqueles pensamentos que minavam a concentração e de focá-la em um só ponto, pode-se agora obter um nível completo (de 100%) de comprometimento!], porém, agora ela está concentrada em nada, até mesmo o fato de que alguma luz passa por nossas pálpebras é deixado de lado, a “manifestação” do nada é o vazio, ou seja, uma escuridão completa que absorve, não apenas nossa mente, mas todos os sentidos.
Mas, se tudo isso é apenas um exercício para melhorar a concentração, certamente não realizamos todas essas etapas a fim de matar nossos pensamentos nocivos e obter uma capacidade maior de foco para ficarmos sem pensar em nada [Existe um certo desentendimento em torno desse assunto, principalmente quando associado com o ditado popular: “mente vazia, oficina do diabo”, como argumento para combater este exercício (que também chamam erroneamente de meditação), aludindo a algum tipo de “porta” que poderia ser aberta para forças demoníacas agirem, mas novamente convém ressaltar que, NÃO SE TRATA DE NÃO PENSAR EM NADA, NINGUÉM CONSEGUE FICAR SEM PENSAR EM NADA, isso é um exercício para aprender concentrar cem por cento da atenção em uma tarefa, seja ela qual for, no caso de Vaniel, tamanha concentração é necessária para que ele consiga perceber os movimentos de seu adversário sem depender de sua visão, portanto, “ele não deve gastar dez por cento de sua atenção em ficar se perguntando como se faz isso, nem mais outros quinze por cento imaginando como essa situação parece estranha”, porque isso o deixaria apenas com setenta e cinco por cento de sua atenção e este número poderia diminuir ainda mais de acordo com quantas dúvidas e pensamentos nocivos ele desprende, o que, num combate, significaria a derrota]. Ninguém é capaz de ficar com a mente em branco, ao menos, não indefinidamente. O passo seguinte será direcionar toda essa concentração que se reuniu ao verdadeiro objetivo, a real tarefa a ser desempenhada que precisava de um comprometimento de corpo e alma!
– …concentre-se em sua respiração e apenas nela. Quando alcançar o auge da concentração será o momento de usá-la. Se deixe cair no vazio (dos sentidos) e mergulhar na escuridão, ela não estará apenas em sua mente, mas aparentará preencher tudo ao seu redor, vai sentir como se fosse dominar todo o SEU mundo e quando acontecer ela se tornará como um outro sentido, como se fosse parte de você mesmo, mas vazia.
– Nesse ponto será como quase enxergar o que virá a seguir.
– Não tente me procurar, não se trata disso, trata-se, na verdade, de esperar que seu adversário venha até você, semelhante a abrir uma porta e esperar que alguém passe por ela.
Depois fez uma longa pausa nos movimentos, palavras e o que quer que fosse, para que seu aluno pudesse se concentrar e aplicar aquelas palavras. Levou quase meia hora até que, Vaniel finalmente consegui ver… …conseguiu ver que ainda não fazia a menor ideia do que aquelas palavras queriam dizer!
Provavelmente isso se tornou tão visível que desapontou seu professor, pois o barulho do golpe (novamente indecifrável) que recebeu em seguida, foi tão alto que as pessoas devem ter ouvido a quarteirões de distância e até mesmo a mão ou pé usada deve ter compartilhado da dor, embora estivesse também satisfeita com o “incentivo”.
– É evidente que você não acredita de verdade em tal capacidade, Vaniel, e assim sendo não poderá “tocá-la” se acha que ela não existe!
– A crença é uma chave divina que “destranca” o sobrenatural.
– Mas já chega por hoje, tente apenas fazer o exercício de concentração em casa, lá, com certeza, será um bom lugar pra praticar e tentaremos de novo numa nova oportunidade.
As luzes foram acessas e portas e janelas abertas, pois os outros alunos já começavam a chegar. A rotina de treino seguiu como de costume, se aqueceram e treinaram, conversaram mais um pouco ao final da aula e tudo foi encerrado naquele dia.

Parece que aquele sensei sabia do que falava, ao menos, quanto a atual moradia de Vaniel, que se provou um bom lugar para este treino, pois todo o seu tempo já era mesmo gasto em ficar de olho naqueles que o cercavam e tentar perceber intenções agressivas tão óbvias e fáceis de serem captadas, que contribuíram bastante para aumentar a percepção do rapaz. Reconhecer os passos a sua volta, ainda a distância, as diferenças entre eles e quem eram seus donos, se tornou algo bem mais evidente. Vaniel também notou que, após mais alguns dias de prática, conseguia perceber em todas as vezes que alguém lhe dirigisse o olhar sem que ele, de fato, notasse previamente que alguém o observava e lembrou-se das palavras de seu sensei:
“Nós humanos, temos pensamentos passando por nossas mentes a cada segundo do dia… …desses pensamentos e desejos nascem nossas ‘intenções tangíveis’ e, quando elas se focam em algum objetivo ou ser com demasiado interesse acabam ‘irradiando’ vibrações, ecos de nossas intenções, para o exterior (sem que tenhamos conhecimento disso, obviamente), assim, (teoricamente e/ou “religiosamente”) seria possível, em condições muito especias, percebê-las e determinar sua origem…”
E durante outro treino (o que levou mais de um mês para que pudessem voltar ao assunto), Vaniel observou:
– Será que a tal irradiação não é originaria da própria alma e manifestada através dos olhos?
– É a isso que se referem quando dizem que “os olhos são a janela da alma”?
– Não é exatamente por isso – respondeu sensei – mas suponho que possa ser também uma boa interpretação. É provável que naqueles momentos em que simplesmente “sentimos” que há alguém nos observando e, em seguida, nos viramos e realmente vemos que havia um observador, se deva pela vibração disparada pelos olhos que, em raros momentos, é intensa o suficiente para ser notada, isso aliada a nossa distração momentânea, ou seja, um vazio na mente e nos sentidos.
– Me parece que você melhorou em sua percepção, quer fazer o treino vendado mais uma vez?
O aluno concordou com a ideia e, recebendo novamente uma venda improvisada, colocou-a sobre os olhos. Como sua última imagem do mundo colorido, ele notou a chegada do sensei Patrício no dojo e sua aproximação ao treino
Vaniel se posicionou no meio do dojo em guarda e sentiu o chão que parecia ainda mais gelado sob os pés descalços agora que estava vendado. Da mesma forma que no treino da outra vez, ele precisaria se defender dos golpes sem auxílio da visão, uma tarefa muito difícil, mas agora seria diferente, ele estava mais confiante, certo de que havia conseguido grandes resultados os treinos em casa, ele estava pronto. Mas, mesmo que tenha tentado se concentrar da maneira como havia sido instruído até tenham visto a escuridão se adensar levemente por um instante, Vaniel apenas foi golpeado repetidas vezes e pior ainda, a noção de quais técnicas estavam sendo usadas nunca lhe pareceu tão distante. Vendo a situação, sensei falou:
– Isso ainda não está funcionando, faremos uma pequena pausa pra te dar alguns minutos para se concentrar. Lembre-se de tudo o que falamos, mergulhe na escuridão.
Os ataques então cessaram e tudo ficou quieto. Ocasionalmente ouvia-se algum comentário de Patrício, mas por este sussurrar, não era possível dar significado as palavras. Depois de alguns minutos o silêncio se tornou absoluto, até o ponto de que não só os olhos de Vaniel já haviam se acostumassem a escuridão, como também se tornou possível ouvir até o som da fraca lâmpada acesa ao fundo do dojo.
Naquele silêncio, um pequeno arrastar de pés na direção do aluno, foi o estopim, não para a distração, mas para a verdadeira concentração:
“Não tente me procurar, não se trata disso, trata-se, na verdade, de esperar que seu adversário venha até você, semelhante a abrir uma porta e esperar que alguém passe por ela.”
Depois de mais um tempo, o escuro começou a ganhar alguma força e Vaniel pôde sentir como se fosse preenchido por ele, quanto mais isso crescia, mais a paz aumentava, mas ela não durou muito, na verdade, nem um minuto e subitamente, com num grande estalo, sentiu um chute lateral de perna esquerda se conectando a sua perna direita, desferido por alguém bem a sua frente, o golpe lhe atingiu pouco acima do joelho. Tamanha distinção do golpe aplicado fora o sinal de que sua concentração aumentara e teria sido o suficiente para quebrá-la também, se não tivesse havido um soco as suas costas e outro chute lateral que passou raspando seu rosto. Os sucessivos ataques o fizeram se concentrar mais ainda na escuridão.
Mas os golpes continuaram a passar um após o outro, tanto que, num breve segundo de frustração, Vaniel simplesmente desistiu de tentar realizar aquela tarefa e abandonou tudo sem perceber que, ironicamente, foi aí que “aquilo” veio a até ele por conta própria, uma escuridão muito maior que a da própria noite a maior que já havia visto, com exceção, é claro, da noite em que ainda “seria morto”. A escuridão preencheu tudo ao seu redor de tal forma, que era possível senti-la claramente, por mais estranho que possa soar dizer que alguém pôde sentir a escuridão claramente!
À desistência pessoal foi o que fez sua mente se esvaziar, todo o barulho que existia desapareceu e ele sentiu que havia alguém a sua frente, lhe pareceu também que qualquer coisa potencialmente ruim viria da mesma direção, então ele soube:
– Sensei está preparando outro mae geri com a perna esquerda, parece que virá na direção do meu abdomem…
Mesmo estando de olhos vendados e ainda por cima, fechados por sob a venda, o aluno foi quase capaz enxergar, como se houvessem traços no ar que se assemelhavam a ondas, como círculos feitos na água quando é perturbada, porém avermelhadas como o sangue, e se propagavam a partir de um ponto indefinido vindo de encontro a ele, lhe passavam um certo temor. Em face disso, tentou se defender e, de fato, sentiu que a guarda ia na direção correta, mas de nada valeu e Vaniel foi atingindo e empurrado para trás.
Se fez outra pequena pausa, em seguida ele sentiu novamente a mesma sensação, haviam mais ondas vermelhas de desespero percorrendo o vazio da escuridão porém, vindo, dessa vez, de um ponto as suas costas e em altura inferior a anterior, talvez mirando sua perna esquerda que estava mais atrás. Ele vacilou com sua própria surpresa e demorou a reagir, mas quando finalmente fez menção de que iria, ao menos, se virar na direção correta, já era tarde demais e já havia sido atingido. Houve uma terceira vez, agora ondas maiores e mais brilhantes do que antes se formaram a frente de Vaniel, como se fossem carregá-lo para longe, o temor aumentou muito, certamente viria um belo golpe por aí, e num movimento rápido e por impulso, ele ergueu a guarda tentando formar uma defesa sólida contra o que viria, mas assim que o fez, as ondas se esvaíram e o golpe que deveria as seguir simplesmente não aconteceu.
Após uma curta pausa houve uma quarta vez, mas a intensidade foi um pouco menor, vinha da direita, a altura das costelas. Mas enquanto Snow tentava movimentar os braços para criar uma barreira entre o que quer que estivesse vindo e mexer os pés na direção contraria, os círculos brilharam mais intensamente e aceleraram a velocidade, de repente um yoko geri kekomi o atingiu em cheio, o lançando uma boa distância na direção contraria, de modo que pareceu ter sido um golpe envolto em raiva, continuar de pé durante o movimento gerado pelo impacto foi tão difícil que a venda escorreu pelo seu rosto revelando vultos de uma pessoa no escuro e a concentração que havia conquistado durante o treino foi destruída pela dor provocada pelo golpe.
Um som ecoante de palmas surgiu as costas do aluno, que esfregava o local onde recebera o duro golpe segundos atrás, em seguida a luz se acendeu, cegando momentaneamente qualquer tentativa de visão feita por alguém que, até então, estava vendado, mas fazendo força para enxergar, Vaniel encontrou seu sensei batendo palmas a uma grande distância, o que pareceu estranho. Quem o havia golpeado a poucos instantes?
Aquele que estava de pés bem a sua frente e ainda desfazendo sua guarda era o sensei Patrício, havia sido ele a desferir os golpes anteriores e não sensei Rodrigues. Esse último, se aproximou de ambos e disse:
– Parabéns Vaniel, conseguiu sentir e reagir quase de acordo. Mas, embora tenha ido na direção correta e também com a intenção correta, todos os golpes acabaram encaixando porque, ainda te falta uma prática que nem eu possuo, ainda assim, o mais difícil já foi alcançado.
Patrício falou imediatamente justificando o que aconteceu:
– Snow apenas se moveu em direção ao barulho que ouviu em cada golpe, não tem absolutamente nada de especial nem de místico nisso!
Os momentos seguintes foram gastos por Vaniel numa tentativa de descrever com grandes detalhes tudo aquilo que houvera visto e sentido, como ele conseguiu supor de onde viria cada golpe, entretanto, ainda faltavam as palavras corretas, de modo que apenas seu sensei conseguiu compreender do que se tratava, enquanto que Patrício expressava com seu olhar a loucura que tudo parecia para, em seguida, dizer novamente:
– Aquele último golpe, eu o fiz em total silêncio até mesmo relaxei o corpo para que você não percebesse até ser tarde demais e o resultado foi que o peguei de jeito!
– Sentir os golpes como está me dizendo – e Patrício disse isso olhando para Vaniel e não para o sensei ao seu lado – só faz sentido se estivesse seguindo o barulho dos movimentos, ou lendo através da linguagem corporal do adversário. Quando pensamos no movimento que executaremos a seguir, acabamos dando pistas sem perceber, uma contração muscular sutil, ou de um desvio de olhar em direção ao ponto de ataque, mesmo que ele dure menos de um segundo, dessa forma, um lutador experiente pode captar essas evidências e antecipar os movimentos.
Sensei então convidou os três a se sentarem no chão de pés cruzados, como era de costume durante tais conversas após o treino, em seguida tomou a palavra mas, dessa vez, em tom mais “particular”:
– Existe uma grande diferença na “intensidade” e/ou credulidade com que cada pessoa interage com o mundo a sua volta, foi por isso que deixei que fosse o sensei Patrício a golpeá-lo por último. Ele expressa muito mais as vibrações de suas intenções, seria mais fácil senti-lo do que se fosse eu mesmo.
Então, sem aparente explicação, ou assim lhes pareceu, o professor mudou de assunto:
– Já assistiram a animação japonesa Street Fighter II Victory?
– É claro – respondeu Vaniel – não perdia um episódio quando era pequeno, passava na TV aberta apenas aos sábados, acho que foi uma das primeiras obras em que realmente assisti com atenção em minha vida.
Sensei respondeu:
– Não existe exemplo melhor do que esse anime para ilustrar aquele fenômeno que tentou nos descrever a pouco. Ainda que tudo ali seja fantasioso em vários aspectos, possui uma pitada de “conceitos reais” em sua base, ao menos, naquilo que se refere as artes marciais, por exemplo, quando o personagem Ryu entra na Caverna do Demônio na Índia, ele vê uma manifestação espiritual que assume a imagem de um inimigo anterior, no caso, o Coronel Willian Guile e o mesmo se põe a sua frente pronto para combatê-lo. Durante a luta, Ryu foi capaz de enxergar linhas vermelhas que partiam do golpe de Guile, até o ponto em que o mesmo visava atingir, logo percebe-se que as linhas simbolizavam as vibrações da intenção de seu ataque, ou seja, seus pensamentos de qual das armas usaria e qual seria o local atingido.
– Em meu caso, é exatamente desta forma que enxergo as mesmas vibrações que Vaniel presenciou, talvez eu as veja assim justamente pela lembrança da animação…
Nesse momento Patrício se levantou bruscamente parecendo bem mais incomodado do que antes, pegou suas coisas e saiu pela porta com passos barulhentos, depois da pausa que fizeram involuntariamente para assistir atitude do rapaz, sensei voltou a falar:
– Tal como ocorreu no anime, você apenas foi capaz de “enxergar” as intenções de Patrício porque ele, certamente, pensava com clareza no que faria e como o faria.
– Lembra-se do dia em que andei pelos pássaros sem que me notassem?
– Sim – respondeu Vaniel – você foi e voltou por eles sem que se espantassem com sua presença.
Sensei continuou:
– Alguns animais confiam mais nas vibrações que são disparadas pelos cinco sentidos do que nos próprios sentidos exatamente, mas o que acontece quando não existe essa vibração?
Vaniel pesou por alguns momentos e disse quase para si mesmo:
– Não se poderia sentir o ataque…
Sensei concordou e acrescentou:
– Este é o real motivo porque alguns estilos mais… “místicos”… de artes marciais insistem em dizer: “Não pense! Sinta!”
Vaniel se pôs a pensar, descruzou os pés abaixo de si e cruzou de novo, como se tentasse fazer seu cérebro pegar no tranco, em seguida ergueu a cabeça de forma quase esperançosa e perguntou:
– Quais são os outros tipos de… “poderes”… que podemos aprender?
Então seu sensei riu e, quase debochando de seu aluno, respondeu:
– Já disse que isso aqui não é nenhum anime!
– É preciso separar o que é realidade daquilo que é fantasia. Mas, em certo sentido, podemos sim dizer que o ser humano tem algumas capacidades que são maiores do que aquelas puramente físicas, de fato, existe muito mais do que aquilo que a ciência e as “grandes mentes” dizem existir.
– Como Cristão, creio na existência de Providência Divina, quero dizer, os milagres e a ação de Deus, entretanto, também é verdade que fomos feitos A Sua Imagem e Semelhança, dessa forma, é possível que tenhamos herdado alguma espécie de “poder/dom” de nosso Criador, ainda que de forma ínfima.
– Isso tem sido motivo de discussão entre as diferentes religiões pelo mundo e pelas eras. Algumas linhas de Espiritismo, por exemplo, dizem que milagres “não existem”, isto é, não seriam nada mais do que a ação de algum poder mediúnico manifestado pelo próprio indivíduo, excluindo a ação de Deus em tais fenômenos.
– Eu mesmo tenho um relato curioso quanto a isso, daquela vez em que acabei machucando meus olhos durante o treino, lembra-se?
– Sim – respondeu o aluno – foi a primeira vez que a aula foi dada apenas pelo (até então) instrutor Patrício.
Sensei continuou:
– Naquele dia, momentos antes de começarmos o treino, me peguei estranhamente hipnotizado pela simples luz de um dos postes da rua e até me lembro de achar aquele súbito interesse estranho afina, o que havia de tão especial na luz do poste?
– Alguns minutos depois, aquilo me atingiu nos olhos.
– Quem sabe, aquela estranha fixação, não com luz em si, mas com minha própria visão, seja um sinal de uma herança Divina que nos possibilita divisar o que está por vir, certamente não em igualdade ao próprio Criador que divisou antes da própria criação até o dia final, é claro, mas, quem sabe, esta capacidade infinitamente reduzida seja, na verdade, parte de nós, ainda que se encontre atrofiada devido a queda de nosso estado de plenitude.

BRANHAM, Willian Marriom, O SOM INCERTO. Jeffersonville, Indiana, EUA: 18 de Dezembro de 1960. Tradução GO. Parágrafo 34 – “O homem no princípio, quando foi criado, o homem é um deus. Ele é absolutamente um deus. Porque ele foi feito a imagem de Deus, sendo um filho de Deus, sendo um filho de Deus.”

– Em contrapartida, a maioria das igrejas atribuem todo este aspecto sobrenatural que reside dentro do homem unicamente à ação de Deus. Não que Ele não seja sua fonte primaria, é claro!
– Em outros casos atribuem a obras do maligno. Mas a realidade é que há um meio termo em tudo, Provérbios (Bíblicos) nos dizem para não nos desviarmos nem para a direita e nem para a esquerda; até mesmo Buda ensinou sobre um Caminho do Meio; ambos falavam de extremos e equilíbrio, ao passo que “andar apenas pela direita, não faz a esquerda desaparecer”. Deus criou tudo em equilíbrio, se por um lado nossos corpos são inteiramente naturais e limitados, por outro, nosso ser interior é espiritual e sem restrições de tal modo que…
Certamente aquele sensei gostava de falar mas, nesse momento, Vaniel se distraiu enquanto pensava sobre estas capacidades divinas e, como sendo ele a única testemunha de tais palavras, como se poderia registrá-las aqui se sequer as escutou?
Mesmo imerso em algumas fantasias sobre assunto, certas palavras conseguiram destruí-las imediatamente:
– …mas, mesmo que saibamos alcançar esses “dons espirituais” como, por exemplo, sentir a intenção de ataque de um adversário, você acha que realmente teria tempo de fazer toda aquela preparação para alcançar a concertação necessária (que normalmente pode levar entre quarenta minutos e uma hora), para só então reagir numa situação real?
– Acha que seu adversário esperaria pacientemente por mais de dois segundos enquanto toma um chazinho?
– Existe também uma questão que chamo de “contra-fé” de seu oponente… “só o espírito” de nada valeria diante de um belo cruzado de direita por exemplo…
CLAUDE LÉVI-STRAUSS, por exemplo, comenta em um de seus textos sobre tribos africanas e americanas, cujas capacidades “mágicas” podem matar uma pessoa a distância e parece que, de fato, isso foi observado e “confirmado”. Mas parece que isso apenas funciona dentro de uma crença comum, ou seja, tanto o autor da magia como seu alvo precisam crer na eficácia do processo. Especulou-se que o “temor” ao “feitiço” poderia, de algum modo, inibir a microcirculação e levar à falência de vários órgãos.
– Algo extremamente semelhante parecer ocorrer dentro do meio das artes marciais em certos estilos “mais exotéricos”, principalmente chinesas ou japonesas, onde determinados mestres exibem vigorosamente “poderes” para golpear seus alunos a distância ou desacordá-los “com seu ki”.
– É claro que há muitos testemunhos quanto a eficácia daquilo, mas quando tais mestres são desafiados por lutadores de outros estilos que são totalmente descrentes daquela pratica, nada funciona e eles geralmente vão a nocaute.
– Na verdade, parece um paralelo com nosso relacionamento com O Divino, a ponte, de Sua parte está sempre estendida a nós, mas temos também que estender nossa “metade” e uni-la a outra, porque não é possível fazer a travessia com apenas metade de uma ponte!
Vaniel então perguntou, visivelmente decepcionado:
– Mas sensei, se nunca vou poder usar isso para nada numa situação real, então por que se preocupar em aprender?
Ele respondeu com tanta simplicidade e verdade que pareceu, ao mesmo tempo, uma ótima e uma vaga resposta:
– Ora, por quê?
– Simplesmente porque fazer essas coisas é muito legal!
Um enorme sorriso veio acompanhado daquelas palavras, e provavelmente Patrício teria se revoltado se as tivesse ouvido, Vaniel até pensou:
– Ainda bem que foi embora, não se deve falar com quem não quer ouvir.
Sensei falou:
– Existe sim uma utilidade para isso, mesmo que não seja relacionado a luta em si, mas tendo desenvolvido tal percepção, é possível sentir que tipo de espíritos estão influenciando as pessoas a sua frente EM MOMENTOS ESPECÍFICOS [O ato de se sentir tais espíritos ou mesmo, a chamada aura, quando de “fonte benigna” pode (em certas linhas de pensamento) ser até questionado, lembrando que o próprio Jesus Cristo não “exalava Santidade” de forma perceptível. Se assim fosse, teria sido muito maior o número de pessoas que O teriam reconhecido], é algo que os Espiritas “usam/falam” bastante.
– Em outras palavras, mesmo que não seja possível sentir quando um adversário irá te atacar na prática, ainda é possível sentir se alguém abriga boas ou más intenções dentro de si, ou ainda, se ela está passando por algum problema. Mas acredite quando eu digo: se pela vontade de Deus e pelos caminhos de teu destino, um único segundo crucial possa ser decidido por alguma convicção que tenha nascido neste momento, já terá valido a pena ter ouvindo meus “teorinsinamentos”…
Vaniel pareceu admirado com tais palavras, não num sentido bom é preciso que se diga, ele apenas ficou pensando como seu professor gostava de parecer algum tipo de adivinho ou coisa assim, tentando predizer grandes feitos para seu aluno, afinal, qual seria a fonte desta mania?
– F-fonte… é verdade, mais cedo falamos sobre isso. Sensei, você se esqueceu de me dizer sobre a fonte de tudo isso.
Imediatamente veio uma resposta:
– Ira, a fonte é Deus, Quem mais seria?
– …
– Você é realmente lento para essas coisas Snow, não prestou atenção a nada do que lhe disse antes?
– Chame de ki, chi, mediunidade ou de energia vital, “isso” é simplesmente o próprio poder de Deus que flui em nós, através de nossa alma, ainda que não estejamos propriamente em Sua presença, ou vontade, carregamos literalmente uma parte Dele em nossa existência, em nosso espírito.
– Mas se for assim – argumentou Vaniel – apenas quem crê em Deus poderia ter acesso a essa “energia”, seria então algo determinado pela fé em Deus?
Sensei respondeu:
– Determinado pela fé, sim, pela CRENÇA EM DEUS (Jeová), não!
– Algumas linhas de pensamento entendem o conceito de alma, ou espírito (dependendo de como os interprete), como sendo literalmente uma chama viva, mas essa chama não fora acesa dentro do homem, senão soprada para dentro dele:

GÊNESIS 2:7 – “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.” (Almeida Corrigida Fiel)

– Nos tornamos “humanos”, isto é, indivíduos muito mais conscientes de nós mesmos do que o resto dos seres [Considere o seguinte raciocínio: a vida é um dom criado, porém, ela por si mesma não chega a gerar uma individualidade plena, um exemplo de “apenas vida”, poderia ser encontrado nas plantas. A “evolução” seguinte, seria a alma que, como observado nos animais, tem o poder de gerar a individualidade e personalidade própria, mas ainda falta algo. A terceira parte que compõe o homem é o Espirito, uma fagulha do próprio Deus que nos eleva a uma “consciência divina”, nos torna humanos] que permeiam a criação, recebemos essa “divindade” através fagulha Divina que o próprio Deus soprou de Si Mesmo em nós e isso é tão grandioso, que apenas o ato de descobrir esta centelha que forma o eu, ainda que não se tenham descoberto Aquele que a implantou em nós, já é o bastante para fascinar, motivar e conduzir (num “sincero equívoco”) certas pessoas a um “sobrenatural inferior” e até criar toda uma religião ao redor do “minúsculo deus”.

BUDA, ROHITASSA SUTA – “No entanto, amigo, eu digo que sem ter alcançado o fim do mundo não há como dar um fim ao sofrimento. Amigo, é exatamente nesta carcaça com uma braça de comprimento, dotada de percepção e mente, que eu revelo o mundo, a origem do mundo, a cessação do mundo e o caminho que conduz à cessação do mundo.”

– Mas, olhando de um outro ângulo: por não conhecerem este aspecto Divino que dá vida ao ser humano é que muitos pensam que, para se manifestar algum dos dons do Espírito Santo descrito nas Escrituras, a pessoa deva ser isenta de pecados, ou qualquer coisa assim, contudo, até mesmo o mais maligno dos homens poderia despertar um lado espiritual, um dom, mesmo não estando na presença de Deus, e as vezes nem mesmo O conhecendo, é por isso que há sim milagres em outras religiões que não conheçam o mesmo Deus que nós.
– Pessoalmente, acredito tanto no sobrenatural como numa eleição feita por Deus, mas “ser sobrenatural”, não quer dizer absolutamente nada, num contexto de afinidade com nosso Criador, pois “a chuva faz crescer igualmente o joio e o trigo”, e nem por isso o joio se torna trigo ou o trigo se torna em joio.

MATEUS 7:22 – “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em Teu nome? E em Teu nome não expulsamos demônios? E em Teu nome não fizemos muitas maravilhas? 23 E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade.” (Almeida Corrigida Fiel)

Vaniel pareceu um pouco perdido, mas ainda disse:
– É por isso que o ato de se receber o Espirito Santo também é chamado batismo de Fogo…
Sensei respondeu:
– A “Verdadeira Chama Divina” é Ele, Deus, Quem se “aproxima” e aviva aquela minúscula fagulha que temos em nós e só então, a transforma numa (pequena) chama viva!

GÊNESIS 2:7 – “Então o Senhor modelou o ser humano do pó da terra, feito argila, e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente.” (King James Atualizada)

BRANHAM, Willian Marriom, O SOM INCERTO. Jeffersonville, Indiana, EUA: 18 de Dezembro de 1960. Tradução GO. Parágrafo 37 – “Agora, quando fomos feitos, quando que fomos feitos. E eles descobriram, recentemente, que o seu corpo está cheio de luz. O raio-X prova isto. O raio-X não tem nenhuma luz em si mesmo. É a luz que ele usa. Você nasce com quatro raios. Após algum tempo, digamos vinte, vinte e cinco, um raio acaba; e aos trinta e cinco, outro, ou quarenta, outro se vai; e finalmente quando você passa dos sessenta e cinco, você está vivendo seu último raio. E cada vez que você tira uma radiografia, você está destruindo aqueles raios. Esta é a razão que você não tem mais… você coloca os pés destas crianças nestas máquinas, porque isto estava simplesmente acabando com os raios daqueles corpinhos. E esta é a uma luz cósmica que está em você, da qual você é feito, cheia de células de luz. Agora, isto é a luz cósmica.”


FOTOGRAFIA KIRILAN – Técnica usada por SEMYON KIRILAN, descoberta “acidentalmente” em 1939. Por meio desta é possível enxergar um halo luminoso ao redor do indivíduo fotografado, estudando esta aura era possível determinar doenças ou o estado emocional do fotografado.

MERIDIANOS – Na acupuntura chinesa, assim como em outras linhas de pensamento “religiosas”, como a hyoga, propõe-se a existência dos meridianos, que nada mais são do que um complicado sistema semelhante ao vascular ou ao sistema nervoso, mas, que tem em sua circulação a energia vital. No exemplo da acupuntura, citado a pouco, diz-se que é possível alterar o bem-estar de um órgão interno manipulando-o através dessa rede. Sempre se supôs que tais meridianos e chakras fossem meramente uma crença religiosa local, porém, por volta de 1960, o cientista coreano KIM BONK HAM injetou um isótopo num dos acupontos e observou seu trajeto por meio de radiografias, o resultado foi que o isótopo realmente percorreu o mesmo trajeto “imaginário” proposto. Certas linhas de pensamento argumentam que esse fluxo de energia seja, na verdade, de alguma forma, material, que também seja uma das forças (ainda desconhecidas) da natureza, mas, nesse caso, uma “força sutil da natureza”.

MAE GERI – Chute Frontal.

YOKO GERI KEKOMI – Chute realizado com a “faca do pé”.

STREET FIGHTER II VICTORY – Animação japonesa baseada no game de luta da Capcom de mesmo nome, lançada em 1995.

ARMAS – As partes do corpo usadas para atacar, tais como punhos, cotovelos e pernas podem ser chamadas de armas dentro de algumas artes marciais.

CLAUDE LÉVI-STRAUSS – Nascido em 28 de Novembro de 1908, em Bruxelas, e falecido em 30 de Outubro de 2009. Foi um antropólogo, professor e grande filósofo francês, considerada o fundador da antropologia estruturalista na década de 1950.

O FEITICEIRO E SUA MAGIA – Publicado originalmente na edição número 41, páginas 3 a 24, da revista francesa LES TEMPS MODERNES de 1949, sob o título original de LE SORCIER ET SA MAGIE.

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